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A Menina que Dança
Ela é feliz. Passeia solta, com passos rápidos pela estrada de terra, levantando poeira por onde passa, oferecendo sorrisos e cabelos ao vento. Tem o sol por companhia e, como retribuição, ele não é capaz de machucá-la, mas apenas aquecer-lhe e abrigar seu corpo e alma.
Saltita por entre árvores, colhendo flores, cesta na mão. Cantarolando aquela música que não lhe sai da cabeça, uma inventada por ela mesma, simples, de três ou quatro versinhos, mas que espalham ao mundo sua felicidade por estar nele.
A menina é linda. Porém, isso nunca realmente importou. Ela poderia ser linda do mesmo jeito ainda que fosse o total avesso dos padrões de beleza. Mas isso é conversa de adulto e a menina não entende. Ela se contenta em cantar e rodopiar. Seu vestido é rodado, cor de sorvete de creme e uma fita vermelha transpassa sua cintura, combinando com os sapatos de boneca. Mas ela é viva. Vive em cada ato, em cada felicidade – oculta ou escancarada.
Beleza, que desculpem as belas e também o poeta, nunca foi fundamental.
Com passos soltos, sorriso no rosto e a leveza certeira de que é na simplicidade que se encontra a felicidade, ela continua dançando vida afora. Dança como se, para isso, houvesse estudado anos. No entanto, não usa mais que sua intuição. A dança é sua vida (ou será sua vida uma dança?), e ela é quem decide qual o próximo passo.
Habita em lugar protegido, não importando bem aonde. No coração de uma floresta, numa ilha em meio a um rio caudaloso, na vizinhança de uma cachoeira, nas alturas de um planalto ou no centro de um jardim inundado de buquês naturais de hortênsias. Quem sabe? A menina dança a vida comigo. Ela habita em mim. E sua casa é meu coração.
P.S.: Estou de “licença” por conta de curso, mudança do blog e etc. Deixei esse texto na gaveta, como a própria menina encabulada. Rs. Mas depois de assistir ao vídeo abaixo, foi irresistível não postar. Ela é uma menina que dança ao som de Led Zeppelin! Linda!! – Detalhe para o pezinho!
Tempo em Osaka

Era sempre às seis horas da manhã que ela sentia o quanto ele fazia falta. Quando não encontrava ali a mão para entrelaçar, o calor da respiração para sentir, o aconchego do abraço debaixo das cobertas. Mesmo estando no lado oposto do mundo, acordava sempre nesse horário com sua lembrança.
Quanto tempo havia passado desde aquela inesperada partida? Duas semanas, sete meses, quinze anos? O tempo, em horas como essa – doce ironia –, é incontável. Talvez possa ser medido pela dor que ela sentiu. Algo tão intenso e maciço, ao mesmo tempo causando um oco vácuo incomensurável por dentro… Quanto tempo chorou relendo as palavras deixadas na carta sobre a mesa, tão à moda antiga (tão à moda dele)? Quanto tempo ficou lá, largada no mesmo lugar segurando aquele pedaço de papel que, antes tão torturante, agora não lhe causava nada (afinal, nada era capaz de lhe atingir)? Quanto tempo levou para levantar da cama sem ajuda de pessoas ou remédios que a mandassem fazer isso?
Impossível dizer.
Aquele vazio imenso que se abriu dentro dela permaneceu. Nunca mais foi a mesma. Era como o Bart Simpson quando ele “perde” sua alma: alguém fisicamente presente, contando somente em número. Quando a dor começou a ceder, não conseguiu ter qualquer reação enérgica a respeito do ocorrido. Os cabelos continuaram desgrenhados, sujos, tal qual as roupas e o resto da casa. Pensar era um esforço desnecessário, posto que buscar justificativas também o eram.
Às vezes, percebia a presença de pessoas em sua casa. Elas falavam línguas estranhas, coisas que ela não compreendia: “seguir em frente”, “gostar de sofrer”, “aproveitar oportunidades”, “tornar-se menos dependente”, “aprender com os erros”, etc. Mas ela entendia apenas a dor causada pela carta e as breves ilusões das lembranças que guardou. Tornou-se, instantânea e inconscientemente, cega e surda ao mundo como forma de evitar lidar com o caos novamente. Categorizou todas as formas de relacionamento presentes em sua vida e etiquetou-os.
Imunizou-se contra a humanidade.
Um dia, porém, abriu a caixa de Pandora. Eram seis horas e quatro minutos da manhã do dia seis de janeiro, horário local de Osaka, quando ela sentiu aquela sensação familiar que, há dois anos, onze meses, nove dias e vinte e duas horas não sentia. A mão, maior que a dela, encaixando-se na sua, dedo por dedo; o calor da respiração chegando de leve em seu pescoço; e o braço passando delicadamente por debaixo de cabeça, deixando no ar o mesmo perfume de sempre. Ele voltou.
Ela, contudo, apesar da vida adiante, deu-se conta de que havia deixado seu coração na sala, quando da partida dele, com a carta na mão e as lágrimas nos olhos. Podia ter tudo de novo ou tudo o que sempre quis, mas jamais conseguiu ter a si mesma de volta. Sendo assim, não foi qualquer sentimento ruim ou vingativo que a fez, também e definitivamente, deixar uma carta na mesa. À sua moda.
Dois

Eram casais em sua forma básica: homem e mulher, alguma diferença de idade e sorrisos espalhados nos cumprimentos. Fora isso, as duplas não tinham nada em comum.
Quando o primeiro se formou, inauguraram a fase de ouro das duas casas: eram primogênitos no sentido cru da palavra – primeiros filhos, netos e sobrinhos – a sentarem seus traseiros em um sofá e passarem algumas horas trocando confidências. Trocaram mais que isso: o sofá deu lugar às casas de familiares e as confidências à intimidade. Com ela, vieram as incertezas de como seguir.
O segundo casal parecia uma possível continuação alternativa do primeiro. Um “happy ending” certeiro, contrastando com a pasmaceira habitual dos familiares e do casal número um. E, se existem papéis a serem cumpridos em uma relação, estes eram cumpridos com perfeição pelos dois: mesmos gostos, mesmas amizades, cumplicidade, afinidade e o sonhado sentimento de amor romântico com o qual a Disney nos faz sonhar desde as fraldas.
As incertezas e tormentas do primeiro casal pareciam não afetar o segundo, sempre forte e confiante de que, agora juntos, nada mais deveriam temer. Os primogênitos, por sua vez, também não se abalavam com a demasiada confiança e realização dos outros. Ficaram, até mesmo, aliviados: sentiam-se menos obrigados a cumprir funções sociais de “felicidade” perante a sociedade.
Existem ocasiões nas quais o ditado “parece, mas não é” pode ser convertido em “assim é, se lhe parece”. Ocorreu que eram tantas as felicidades, as alegrias, as paixonites e os entendimentos que o “eterno enquanto dure” acabou. O segundo casal amargou o gosto amargo: de admitir o fim – um para o outro, principalmente, e de enterrar uma história que poderia ter sido bonita e duradoura sem tantos excessos. Enfim, de saber que o fim é, também, uma forma de começo, como diria o poeta.
O primeiro casal continuou sua luta, às vezes, no sentido literal da palavra. Nunca foram verdadeiramente admirados, mas julgados, sempre com o ar de dúvida daqueles que indagavam: “até quando? será possível? como os dois conseguem?” Porém, compreender que o amor não é romantismo mas luta (e, tantas vezes, luta interna, debatendo tête-à-tête com você mesmo em benefício dos dois) pode ser, de fato, uma grande vitória em dias de desamores românticos diários.
Instantâneo

O casal atravessa a rua, lépido e faceiro. De fora, só agilidade, felicidade, nada de problemas. A garota linda de vestido floral, esvoaçante de acordo com as rápidas passadas na faixa de pedestres, olha para trás e estende a mão ao também lindo namorado, estilo alternativo, que cobre longas distâncias com as pernas compridas. Quase uma foto dessas de capa de trilha sonora de novela ou campanha publicitária aleatória… Mas a vida não é assim. Por dentro, tudo é diferente: brigas, vida de aparências, humilhações e ciúmes doentios. Amor ali é coisa que não tem.
A moça que olha o casal atravessando a rua pensa: “gostaria que fôssemos assim!”, enquanto dá uma trégua na discussão com o noivo sobre a cor das toalhas que cobrirão o salão de festas no dia do enlace nupcial. Tomando sorvete, são o retrato da displicência nossa de cada dia. Sentados lado a lado, não se olham nos olhos, não sorriem e não há sequer contato físico – a não ser as mãos dadas, o mero clichê social que estampa a existência de um ainda casal. As olheiras dela, nada naturais, demonstram um cansaço de quem já desistiu de lutar e se deixou levar pela frustração, aceitou a derrota e viverá assim. Apenas sonhando com uma mudança que nunca chegará.
Enquanto isso, um bêbado passa pela sorveteria e mal tem olhos para o casal que, há tempos, perdeu o brilho, “la joie de vivre”. Segue, faminto, com olhos e pensamentos – assim como o noivo da moça, coitada – um mulherão espetacular, passo por passo (ou coxa por coxa) entrando em uma loja de roupas, do outro lado da rua. O pé-de-cana frequenta o bar como muitos beatos não vão à igreja (mas gostariam, ou dizem ir). Porém, a finalidade é a mesma: aliviar uma dor, esquecer, tentar perdoar a si mesmo. Até agora, porém, tudo o que conseguiu foram algumas doenças, um bafo singular e o apelido de “Canabrava”.
Do lado oposto da cidade existe uma mulher que muito amou. Assim como aquela que entrou na loja, tinha uma beleza incomum, chamando a atenção de considerável parte das pessoas – homens ou mulheres. O bêbado, então, não era desse jeito, mas um homem que tinha nome de família, endereço e trabalho: todos os pré-requisitos para ser aceito na sociedade. Mas tinha um defeito incorrigível: era covarde. E foi essa covardia que o destituiu de tudo o que poderia ter vivido… Por essas e outras, essa mesma mulher que muito amou esse homem covarde o perdoou e nunca o esqueceu, mas seguiu sua vida. Essa mesma mulher pensava nesse homem covarde todos os dias pela manhã, enquanto preparava o café e então seguia sua vida. Essa mesma mulher que amou esse homem covarde nunca entendeu o que realmente aconteceu, mas sábia que era, sabia que a vida não dá tempo para pensar e decidiu não parar no tempo.
E essa mesma mulher que muito amou esse bêbado, então um homem covarde, agora espera sua filha chegar em casa. “Melhor fracassar na paixão que viver como uma freira!”, pensa a filha, olhos rasos d’água, sentada na sorveteria, sonhando com amores impossíveis, de forma igual e diversa de sua mãe. Nesse mesmo momento, nem sequer imagina que seu eternamente desconhecido pai, tropeçando nos próprios pés por conta das doses de auto-piedade em forma de álcool, pára cambaleante na calçada e divide um momento de contemplação da beleza feminina com seu próprio e, também infeliz, futuro e desconhecido genro.
A Cidade é Uma Novela

São oito horas da manhã e, como numa antítese de Manoel Carlos, as putas do centro ainda estão paradas na esquina com suas barrigas proeminentes e roupas minúsculas chamativas. Montes de lixo se acumulam nas ruas; verdadeiras montanhas de papelão, plástico e restos de comida. Um cidadão nipônico de muletas aguarda na faixa de pedestres para atravessar a rua. A loja de brinquedos é dos poucos comércios já abertos nessa hora; uma senhora evangélica sai de lá com um embrulho. Dia nublado, guardas de trânsito cumprindo sua rotina com uma altivez peculiar – como se fossem capazes de parar o tempo.
O Centro de Arte Contemporânea e Fotografia é, de fato, uma construção muito bonita. Meio antigo, dá aquele ar decadente ao centro da cidade – fica no meio-termo entre o “decadente ruína” e o “decadente clássico”, tornando-o ainda melhor. Mas passa tão despercebido e apagado entre os transeuntes que parece até meio encolhido num dia cinzento como esse. Mesmo assim é um suspiro poder admirá-lo, ainda que seja tão tímido.
Esse trânsito é que não ajuda. As pessoas que compõem o trânsito não ajudam. A BhTrans não ajuda. BH não ajuda também. Andar anda difícil nessa cidade. Enquanto isso, um casal sentado em um banco de uma praça se estapeia com o jornal do dia. As notícias não são boas, definitivamente.
Belo Horizonte é suspiro e medo, prazer e dor, resistência e silêncio. Cidade que ganhou ares diferentes com as lutas dos professores, com as merdas jogadas no ventilador e constantemente sufocadas. Já foi símbolo da modernidade, da mineiridade e da “boemia comportada”… Muito mais que apenas rótulos e construções ideológicas de uma elite, ela com certeza é e pode ser. Mas o povo não liga pra essas coisas (e lembre-se: o povo sou eu, você e aquele que torce o nariz recém-operado e diz “povo, jamais!”).
A capital que amanhece como outra qualquer às segundas-feiras cinzentas, não é qualquer uma. É palco, sujeito e vítima. Por vezes, também algoz. Seus personagens sentem e a fazem sentir, nessa pulsação frenética do mundo contemporâneo: “nada basta”, “nada basta”. Sempre é possível mais; ir mais longe, mais fundo, mais tarde, mais adiante…
E a pergunta que sobra, no meio da roda é: será (que devemos ir tanto assim)?
Rede Anti-Social

Seres humanos são vergonhosos e fascinantes. Nenhuma novidade. O que pode surpreender é a capacidade de renovar o sentimento de vergonha com atitudes cada vez mais banais, mais mesquinhas.
Não são novidades as atualizações em redes sociais quase que segundo a segundo com exclamações sábias como “A vida é uma só. Cuide da sua”, ”A sua inveja é o sinônimo do meu sucesso” ou genéricas. Hipocritamente, a mesma pessoa que publica esse tipo de frase, o faz enquanto bisbilhota o perfil de alguma inimizade. Clássico “faça o que eu digo mas não faça o que faço”.
Olhar para o próprio umbigo como se este ocupasse o centro de nosso curvo universo (segundo Einstein, por favor, físicos, não me xinguem) remonta a tempos imemoriais. João Batista, coitado, perdeu a cabeça numa bandeja de prata por conta do umbigo de Salomé, Sócrates bebeu cicuta por conta dos umbigos de meia dúzia de “cidadãos” incomodados e assim caminha a humanidade, louvando e punindo de acordo com seu humor. Porém, a “humanidade” pode ser reduzida a bem pouca dezena de pessoas que se dedicam muito mais fazer o que querem do que entender o que precisa os bilhões de bípedes homo sapiens sapiens viventes na crosta terrestre.
Um bom exemplo desse excesso de egocentrismo atrelado ao “controle” de massas é bem típico: os chamados pequenos poderes. Experimente prover de qualquer grau de poder alguém (1) despreparado, (2) ávido e (3) egoísta. Merda na certa acompanhado de um “vocêssabecomquemestáfalando??”, em alto e bom som, que é para você e quem mais estiver perto ver o quão ridículo é alguém assim se situarem a respeito. São esses pequenos poderes que frustram, incomodam, humilham, contradizem e são capazes de ignorar leis em nome de seu próprio bem estar (leia-se manutenção de seu poder). Agora, imagine um ser de tal naipe com um alcance maior. Pois é, não é preciso imaginar, eu sei.
O que as pessoas são capazes de fazer em nome de microssegundos de fama para ficar embaixo de qualquer holofote ainda causa espanto. Programas de televisão dos mais bizarros, nos quais as pessoas se sujeitam a aparecer (nesse momento aquele do Dr. Rey grita na memória), são realmente chocantes. Em menor escala, são citadas, novamente, as atualizações de redes sociais, em que as pessoas publicam fotos, frases e notas estranhas, íntimas ou indiscretas; tudo por um grande “público” que curta aquilo ou “comente” bastante, sem lembrar do que foi dito no minuto seguinte. Afinal, instantaneidade é lei em tempos contemporâneos. Virtuais ou não.
De longe, o Twitter é o maior exemplo disso. Sendo o “elo perdido” de contato entre anônimos meros mortais e celebridades, trouxe uma dúbia e inédita capacidade, através de simples 140 caracteres: comunicação direta e imediata com quem quer que seja, em qualquer lugar do mundo. De início, ou para quem utiliza sabiamente, pode ser uma vantagem, mas para a grande maioria (leia-se adolescentes no auge dos desesperados hormônios) tornou-se um misto de competição e… competição. O passarinho azul instiga todo o tempo: “consiga um número maior de seguidores” (seita?), “siga mais pessoas” (apocalipse zumbi?), “acompanhe e compartilhe tudo o que você quiser em tempo REAL” (nessa “realidade” aclamada não caberia, no mínimo, um questionamento?).
Grande parte das pessoas (que conheço) tem ressalvas com o Twitter, estando eu entre elas. Toda essa promoção da facilidade de comunicação, do instantâneo, de tempo real, por outro lado, só atrasa vida. Ficar horas no computador ou celular acompanhando atualizações, deixar de curtir momentos reais para escrever que está curtindo esses momentos ou implorar por seguidores não soa muito interessante. E, para dizer a verdade, esse contato “imediato” com o ídolo pode nem ser tão saudável – ter um já não o é, posto que segundo o dicionário,
“Ídolo (substantivo masculino):
1. Figura, estátua que representa uma divindade que se adora.
2. Fig. Pessoa pela qual se tributam louvores excessivos ou que se ama apaixonadamente.
3. Personalidade que desfruta de grande popularidade.”
Grande parte da veneração está na ilusão causada pela imagem que se faz da pessoa, logo, estar em contato direto com esta desconstrói toda a aura de ilusão e mito.
Enquanto pensava sobre como terminar esse post, já grande, li um texto no jornal de um autor muito querido falando exatamente sobre o assunto. Compartilho, então, com vocês (grifos meus):
Quem segue quem?
Disseram-me que no Youtube tem um vídeo satirizando os chamados seguidores do Facebook, do Twitter e dos blogs. Uma pessoa vai andando atrás de outra na rua e pergunta se pode segui-la. Uns acham estranho, outros concordam. Procurei esse vídeo, mas não o encontrei: ou não existe ou se dissolveu na nuvem.
Mas a ideia é instigante. As pessoas não gostam muito de serem seguidas fisicamente, mas adoram ser seguidas virtualmente. Pessoalmente é ameaçador. Vejam esse cantor canadense Justin Bieber. Multidões de adolescentes histéricas surgem diante do hotel em que ele se hospeda, hordas de semicrianças esperam até uma semana na porta de um estádio para ver e seguir o ídolo. É quase uma cena de canibalismo virtual. Se ele facilitar, é devorado. Por outro lado, se fizesse como aquele ditador do Haiti, que ordenou que os soldados se jogassem num abismo, a multidão se precipitaria no vazio celeste como os extremistas de Alá, que se matam ingloriosamente.
O termo seguidor pode se converter em perseguidor. O fã e o crente seguem e perseguem. A internet está cheia de comerciais incentivando as pessoas a seguirem miragens de todos os tipos, ensinando a ganhar seguidores e clamando: “Quero seguidores”.
Outro dia, vi um escritor que se gaba de ter 6 milhões de seguidores e passa o dia inteiro na internet dando alpiste para eles. Esse fenômeno dos seguidores virtuais deveria merecer algum estudo sócio-psíquico-antropológico. Quem segue quem? Aliás, será que os seguidores seguem realmente o outro, ou é tudo fantasia? Fiz umas experiências. Entrei no Twitter e percebi que, na verdade, ninguém segue ninguém, todos querem ter a ilusão de serem seguidos. Também abri, durante certo tempo, meu blog aos seguidores. Notei, com raríssimas exceções, que as menções deixadas eram rastros de descaminhos. Eu era apenas um “lugar”.
Claro que o seguidor virtual tem características atraentes; caso contrário, nem existiria. É descompromissado. Pode usar até pseudônimo. Pergunta-se: ele está procurando alguma coisa ou apenas se divertindo com a seriedade, a ingenuidade ou a vaidade alheia?
Julio Cortazar tem um conto, “O perseguidor”, mas se trata de alguém que procura a perfeição artística. Lembrei-me (e o Google não me socorreu) de um poema – de Enzemberger, acho – falando do perseguidor que persegue e acaba perseguido. Mesmo que não seja deste poeta alemão, a ideia é muito ajustada ao momento atual. Pois, se de um lado da questão estão os perseguidores perseguindo alguém, por sua vez os que se dizem perseguidos também perseguem seus perseguidores. O Ibope é isso. A publicidade é isso. Uns já não podem viver sem os outros. Lançam mão de todas as artimanhas do marketing para domar, provocar, incitar os perseguidores. É o caso dos artistas pop, sejam os Beatles ou os Rolling Stones ontem, seja esse Justin Bieber açulando multidões que o perseguem, sem que se saiba quem é caça e quem o caçador.
Affonso Romano de Sant’Anna
(Estado de Minas. 16/10/2011)
Nesse Momento, Um Desconhecido Te Olha Pela Janela

Janela. De acordo com o Priberam da Língua Portuguesa (não achei o Aurélio online):
(latim vulgar januella, diminutivo de janua, -ae, porta, entrada)
s. f.1. Abertura feita em parede ou telhado de uma construção, para deixar entrar claridade e ar.2. Moldura geralmente móvel, de madeira ou metal, envidraçada, que serve para tapar essa abertura.3. Abertura semelhante, em veículos, que possibilita visibilidade e ventilação.
Caminhar pelas ruas da cidade é algo corriqueiro, que todo mundo faz/fez. Agora, é preciso ir além e imaginar que, quando você está com os pés nos pedaços de passeio esburacados desse Brasil ou dentro de algum carro/ônibus, muito provavelmente, alguém te observa, ainda que por poucos minutos (porém, suficientes). Afinal, o mundo todo não sai de casa ao mesmo tempo.
Olhar pela janela exige muito, posto que difere do simples olhar da janela. A pessoa olha além, observa o cenário, imagina o que aqueles personagens estão fazendo com suas vidas no exato momento em que ela se dedicou a pensar sobre isso. E não importa “le temps qu’il fait”, sempre haverá alguém lá, com a imaginação a postos, faça chuva ou faça sol.
Os transeuntes que engrossam o corre-corre sofrem com o turbilhão de pensamentos: desemprego, metas no emprego, insatisfações, decepções, dúvidas, relacionamentos amargosos, pouco amorosos, dívidas, família, doenças, compras, casa… Nem cogitam que, de algum ponto da cidade, perto ou não, alguém os inquire: “Para onde vai? Por que essa pressa? Qual a razão de um ser tão belo ter esse ar tão triste? O que faz da vida? É feliz? Gostaria de mudar?”…
Como reagiriam a tais perguntas? Como reagiriam a uma atenção tão especial e despretensiosa?
Mas é o suspense e a dúvida do jogo que fazem o gosto da brincadeira. Quem te olha pela janela quer mais a emoção de imaginar que a verdade (e o desapontamento). Às vezes, as imagens marcam, porém são comumente efêmeras. Ele dá apenas aquilo que recebe – mera atenção passageira; pois sabe que, de algum lugar, existe alguém que também o olha pela janela e indaga as coisas que gostaria de saber.
E você, já olhou pela janela hoje?
“E Agora, Débora?”

“Por que eu sofro tanto, por que será?”
Com certeza muita gente se pergunta isso todo dia, diante de qualquer fato que possa causar aborrecimento. Sempre tive vergonha dessa pergunta; sempre achei desaforo me perguntar isso, afinal, tenho (ou achei que tinha) tudo e muito mais que alguém pode querer para suportar várias situações de maior ou menor desespero. Portanto, ao invés de buscar fazer a coisa certa e não me importar realmente, eu fazia faço o errado e sofro em silêncio. Acumulo; deixo apodrecer, mofar, até criar vida e virar outra coisa. Mas só criei coragem para me perguntar isso hoje… Contudo, essa pergunta não é um sinal de auto-piedade.
É, de verdade, um questionamento. Me perguntei desesperada o porquê desse sofrimento após ser tomada por uma agonia advinda da necessidade de escolher algo estúpido: abri um email e me deparei com a possibilidade de tomar aulas de desenho grátis em BH. O dia, porém, seria conflituoso com uma atividade que exerço em minha cidade natal. Pronto, isso bastou para desencadear o nó na garganta, o peso no peito e sensação de agonia tão familiares.
Todavia, apenas hoje tenho consciência exata do tamanho do meu problema. Algumas pessoas, ao longo da vida, me disseram que eu deveria procurar ajuda psicológica, que eu sofria demais, etc etc etc. Bom, se por um lado eu sempre achei 99% da humanidade insensível demais, por outro me considerava meio que um peso na vida dessas pessoas. Portanto, pensava no conselho mais como um desabafo do tipo “vai lá, joga a merda no ventilador de outro, que sozinho não aguento” do que algo realmente sério. Até ontem.
Estava eu ontem assistindo uma palestra que nada tinha a ver auto-ajuda, mas que falava a respeito do “medo”, de forma geral. Lá pelas tantas, a palestrante começou a enumerar alguns “sintomas” de quando as camuflagens que usamos deixam de ser reações naturais e tornam-se patologias. Disse que, existindo, de fato, pelo menos uma daquelas citadas, era melhor procurar ajuda profissional e tal. Bem, não sei citar quais foram, nem dizer qualquer número exato, mas posso chutar algo entre 9 e 11. Preciso, entretanto, frisar aqui o número dentre os quais eu NÃO me identifiquei: UM.
Depois disso tentei me concentrar nas coisas que ela dizia, mas era impossível. Uma coisa são pessoas que convivem e entram em conflito diário dizendo que você deveria procurar ajuda. Outra é uma completa desconhecida te descrever, sintoma por sintoma, e concluir a mesma coisa. Senti como se estivesse derretendo pela cadeira. Em resumo sou, na verdade, camadas de medo ambulante (ela não usou essa expressão, só para constar) que se disfarçam de orgulho, agressividade, sarcasmo, ironia, ansiedade, revolta, depressão, tristeza, carência… A lista é grande; parece interminável nesse momento.
Sei que tenho muito a fazer, muito trabalho – comigo mesma – pela frente e nem sei por onde começar… Até mesmo porque “de longe todo mundo é normal”? As pessoas não acreditam quando falo, mas enquanto aquela desconhecida me despia em público sem ter ideia do que fazia, minha mãe e minha irmã estavam sentadas a meu lado. É preciso perguntar se elas viram algo do que estou dizendo aqui?
Mas isso fica para um próximo post.
“Partir, Andar…”
Uma semana parece muito. Quando seus pensamentos, suas anotações e possíveis posts estão longe. Quando, mais do que isso, sua vontade é estar em outro lugar. Porém, o lugar para o qual me encaminho não é aquele de meu desejo. Quero partir e ficar, quero chegar e sair. Quero permanecer mais na memória que na vida. Não há conciliação que dê jeito nisso.
E se eu ficar feito pedra, no meio do caminho?
Nem assim. A insatisfação é contínua, desajeitada, mas consegue realocar-se constantemente. Esse ir e vir do cotidiano não dá jeito em algo tão sem jeito quanto a vida. Está difícil viver, eu sei. Mais complexo está sobreviver. Mas, sobre-humano mesmo é compreender tudo o que se passa nesses momentos vividos no limbo (minutos ou semanas, quem irá dizer?) onde nada e tudo estão misturados – nada atinge e tudo pode incomodar.
O amigo tornou-se distante, frio, mas você não quer dizer; opta pelo “diferente”. Dói menos, faz menos alarde alardear a diferença do que a indiferença daquele a quem você ama. O eufemismo tornou-se sinônimo de relação social: vivemos relações eufêmicas (se não é palavra, torno-a agora) em nome do bem estar. Do nosso bem estar. Mas já falei disso aqui, ici, qui e acolá e demais textos que estou com preguiça de procurar porque esse blog já tem alguns anos de vida e a autora escreve compulsivamente.
Ir para longe não é uma solução, é uma fuga. Fuga boa, desejada, que faz tremer dos pés a cabeça esse pobre corpo que digita frases débeis em frente a uma tela plana. Ir embora faz gelar o coração só de imaginar passar quase 9 mil horas sem ver pessoas conhecidas. Vejo isso como um certo egoísmo: apegar demais a determinados fatores – ainda que estes sejam pessoas, para impossibilitar a vivência de novas experiências. Admirável é não sofrer com isso. É um medo irracional, como se o mundo fosse acabar, se determinado eixo fosse sair do lugar ou se as coisas nunca mais fossem seguir seu curso natural.
E, no fundo, dependendo das escolhas, é o que acontecerá: alguns mundinhos realmente acabam, enquanto outros nascem. Dá medo sair de determinados eixos, deixar certas zonas de conforto tão (in)cômodas, pois o curso das coisas nunca mais será o mesmo depois disso. Contudo, apesar do preparo, existe a eterna sensação “looser”. Apesar da esperança, existe o pessimismo que corre como veneno ácido pelas veias, corroendo cada batida do coração: “não se deixe levar”, “não se deixe levar”.
Eis, então, o enigma da esfinge: como superar o medo de fracassar e sobreviver à mudanças tão bruscas, mas necessárias? Quem poderá me defender?
Infelizmente, isso é vida real, e não sairá nenhum Chapolin de trás da porta fazendo palhaçadas e lembrando o quanto uma existência pode ser leve. E apenas em filmes as respostas vêm, literalmente, prontas. A vida é uma charada, de fato, um enigma e a intuição é, às vezes, uma bússola quebrada no meio dessa confusão toda.
Um Suspiro no Meio do Caos
“Acho você muito interessante. Minha escritora interessante.”
“Acho que eu te admiro muito.”
“Acho que eu te amo.”
“Acho que eu também te amo.”
“Acho você linda.”
“Acho que você tá bêbado.”
“Pode ser… Pode até ser. Mas eu te amo muito.”

