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Tempo em Osaka

quinta-feira, dezembro 15, 2011.

Era sempre às seis horas da manhã que ela sentia o quanto ele fazia falta. Quando não encontrava ali a mão para entrelaçar, o calor da respiração para sentir, o aconchego do abraço debaixo das cobertas. Mesmo estando no lado oposto do mundo, acordava sempre nesse horário com sua lembrança.

Quanto tempo havia passado desde aquela inesperada partida? Duas semanas, sete meses, quinze anos? O tempo, em horas como essa – doce ironia –, é incontável. Talvez possa ser medido pela dor que ela sentiu. Algo tão intenso e maciço, ao mesmo tempo causando um oco vácuo incomensurável por dentro… Quanto tempo chorou relendo as palavras deixadas na carta sobre a mesa, tão à moda antiga (tão à moda dele)? Quanto tempo ficou lá, largada no mesmo lugar segurando aquele pedaço de papel que, antes tão torturante, agora não lhe causava nada (afinal, nada era capaz de lhe atingir)? Quanto tempo levou para levantar da cama sem ajuda de pessoas ou remédios que a mandassem fazer isso?

Impossível dizer.

Aquele vazio imenso que se abriu dentro dela permaneceu. Nunca mais foi a mesma. Era como o Bart Simpson quando ele “perde” sua alma: alguém fisicamente presente, contando somente em número. Quando a dor começou a ceder, não conseguiu ter qualquer reação enérgica a respeito do ocorrido. Os cabelos continuaram desgrenhados, sujos, tal qual as roupas e o resto da casa. Pensar era um esforço desnecessário, posto que buscar justificativas também o eram.

Às vezes, percebia a presença de pessoas em sua casa. Elas falavam línguas estranhas, coisas que ela não compreendia: “seguir em frente”, “gostar de sofrer”, “aproveitar oportunidades”, “tornar-se menos dependente”, “aprender com os erros”, etc. Mas ela entendia apenas a dor causada pela carta e as breves ilusões das lembranças que guardou. Tornou-se, instantânea e inconscientemente, cega e surda ao mundo como forma de evitar lidar com o caos novamente. Categorizou todas as formas de relacionamento presentes em sua vida e etiquetou-os.

Imunizou-se contra a humanidade.

Um dia, porém, abriu a caixa de Pandora. Eram seis horas e quatro minutos da manhã do dia seis de janeiro, horário local de Osaka, quando ela sentiu aquela sensação familiar que, há dois anos, onze meses, nove dias e vinte e duas horas não sentia. A mão, maior que a dela, encaixando-se na sua, dedo por dedo; o calor da respiração chegando de leve em seu pescoço; e o braço passando delicadamente por debaixo de cabeça, deixando no ar o mesmo perfume de sempre. Ele voltou.

Ela, contudo, apesar da vida adiante, deu-se conta de que havia deixado seu coração na sala, quando da partida dele, com a carta na mão e as lágrimas nos olhos. Podia ter tudo de novo ou tudo o que sempre quis, mas jamais conseguiu ter a si mesma de volta. Sendo assim, não foi qualquer sentimento ruim ou vingativo que a fez, também e definitivamente, deixar uma carta na mesa. À sua moda.

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